Ainda menina tinha aprendido a ler e a reconhecer os algarismos muito cedo, mesmo sem ter frequentado o jardim-de-infância - na época um luxo de meio urbano e abastado. O
trabalho pedagógico da mãe tinha feito o seu efeito. A frequência da escola fez-se sem sobressaltos.
Um dia, numa ida ao cabeleireiro da mãe - um quase
Mestre Finezas - cirandando pela casa enquanto esperava (o salão de cabeleireiro funcionava numa sala do apartamento subtraída ao espaço da vida familiar), decorou o número de telefone - a memória para números que havia de salvá-la muitas vezes -. O telefone: objecto de fascínio que só muito mais tarde existiu em sua casa.
Naquele tempo as notícias sobre os regressados das ex-colónias contavam histórias de fortunas desfeitas, de casas para sempre esvaziadas, de pessoas que se viam obrigadas a recomeçar tudo e a vender os poucos objectos que tinham conseguido salvar no meio da confusão de caixotes –
a descrição de Kapuschinsky diz tudo, ou quase.
Na casa do cabeleireiro estava à venda um conjunto de cadeirões e mesa (um familiar tinha regressado e precisava rapidamente de fazer algum dinheiro) feito de madeira e folha de palmeira entrançada, que deixou a mãe a imaginar como ficaria composta a sala ainda vazia de conforto. Mas a decisão tinha de ser partilhada com o pai. Quinhentos escudos – quase tanto como o equivalente ao preço de uma dúzia de castanhas assadas que aquecerão o Outono por estes dias – serviriam para aliviar a pena de quem tinha regressado sem quase nada, mas pesavam no orçamento mensal familiar. O pai concordou com a aquisição, mas sem telefone em casa, sem o número de telefone do cabeleireiro e sem tempo para percorrer rapidamente os dez ou doze quilómetros que os separava do salão de cabeleireiro, corriam o risco de perder a oportunidade de vestir a sala vazia.
A menina saiu do seu posto de observadora de sombras e movimentos e números de telefone e disse: “eu sei o número de telefone”. Num primeiro momento a mãe não acreditou (não tinha dado conta que a menina tinha desaparecido da sala enquanto o cabeleireiro dava os últimos retoques no penteado), mas a vontade de vestir a sala mudou-lhe a postura e seguiu de imediato para a padaria da prima afastada onde havia um telefone público. Dubitativa discou o número ditado pela menina. Descansou quando Mestre Finezas atendeu do outro lado. Hoje, o conjunto de cadeirões africanos distribui-se pela casa da menina entretanto crescida.